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A Cartografia como Estado de Consciência

escrito por Lana Moraes

27 jan 2026

Desde o início de sua pesquisa, em 2017, debruço-me sobre a cartografia como campo expandido de investigação. Embora exista vasta e consistente produção teórica sobre o tema, sua transposição para o campo das artes visuais frequentemente se revela superficial, limitada à apropriação estética do mapa como imagem estática, objeto decorativo ou estrutura formal intocável. Nesses casos, a cartografia é tratada como um sistema fechado, no qual apenas representações gráficas já legitimadas parecem autorizadas a sustentar pesquisa.

O trabalho aqui apresentado tensiona justamente essa rigidez. A partir da vivência como mulher trans, desloco a cartografia do plano da representação para o plano da experiência encarnada. O mapa deixa de ser superfície e passa a ser corpo. Surge, então, uma pergunta central: se montanhas se movem, se territórios são redesenhados por forças políticas, econômicas e naturais, por que o corpo — também território, pertencente a alguém e a algum lugar — seria compreendido como fixo?

A cartografia, nesse contexto, já não é um conjunto de signos organizados sobre uma superfície bidimensional, mas um estado de consciência — um modo de perceber como forças de poder atravessam geografias e subjetividades de maneira indissociável.

Ao observar um mapa-múndi, não estamos diante de uma estrutura neutra, cartesiana ou meramente geométrica. O que se revela é uma narrativa histórica construída a partir de uma consciência hegemônica, colonial e normativa. A centralidade recorrente de determinados continentes, a escala distorcida de territórios, os recortes que definem fronteiras — tudo participa de um projeto de organização do mundo que determina lugares e não-lugares, pertencimentos e exclusões.

Desse modo, os mapas não são quebra-cabeças formais disponíveis ao jogo estético. São dispositivos de poder, camadas de compreensão do mundo que, diante das urgências do pensamento decolonial e das dissidências de gênero e corpo, exigem ser desmontadas. O gesto da artista não é ilustrar a cartografia, mas despressurizá-la: liberar seus códigos, suas violências naturalizadas e suas ficções de neutralidade, para que outras formas de orientação — mais instáveis, corporais e plurais — possam emergir.

Aqui, cartografar torna-se um ato de reexistência.

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