lana moraes
Meu corpo fala
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escrito por Lana Moraes
12 jan 2026
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Qualquer pessoa minimamente informada sobre as vivências trans compreende que existir, para esses corpos, implica enfrentar um mundo estruturalmente concebido para negá-los. A troca recorrente de pronomes, as burocracias humilhantes para a retificação de documentos, o afastamento de antigos vínculos afetivos, a rejeição familiar e a dificuldade quase crônica de estabelecer relações amorosas saudáveis — frequentemente atravessadas por fetichizações superficiais — compõem um cotidiano marcado pela exclusão. De forma ainda mais contundente, a inserção no mercado de trabalho revela-se como um dos eixos centrais dessa violência estrutural.
Essas experiências não são episódios isolados, mas sintomas de uma falha profunda no modelo social que habitamos. A história das pessoas trans é atravessada pela dor, pela ausência sistemática de empatia, pela rejeição reiterada, por mortes brutais e pela consciência permanente de vulnerabilidade — a percepção de que a sobrevivência cotidiana não é um dado garantido, mas uma negociação constante.
Diante desse cenário, torna-se urgente questionar a forma como o sistema das artes se aproxima dessas narrativas. Quando o mercado cultural passa a assimilar as vivências trans apenas como tendência, risco-se o esvaziamento político e ético dessas existências. O que se observa, com frequência, é a reprodução de um olhar externo que insiste em enquadrar corpos trans a partir da marginalidade, da precariedade e do sofrimento espetacularizado — não como denúncia, mas como estética domesticada.
Curadorias e instituições que operam a partir desse lugar reiteram, ainda que involuntariamente, a mesma lógica de exclusão que afirmam criticar. Apropriam-se das narrativas trans sem tensionar suas próprias estruturas, reproduzindo um discurso monótono e autorreferente, que fala sobre essas vidas, mas raramente com elas.
A transformação real exige um deslocamento interno. É imprescindível que curadores, galeristas e agentes do sistema da arte abram espaço para vozes que partem da experiência vivida — pessoas trans e dissidentes de gênero que atuem também como curadoras, gestoras e formuladoras de discurso. Somente a partir dessa redistribuição de poder o diálogo se torna possível e a arte deixa de repetir, sob outras formas, a violência simbólica do sistema que a produz.
Diante disso, resta a pergunta fundamental, que atravessa toda prática cultural: de que lado estamos?